O presidente Lula (PT) se aproxima da fase decisiva das eleições sem conseguir ampliar seu apoio entre o eleitorado evangélico, que anteriormente votou majoritariamente no Partido dos Trabalhadores. Mesmo com um cenário menos negativo do que em 2022, a reaproximação com esse grupo, considerado numeroso e estratégico, continua difícil. Pesquisas indicam que, nesta eleição, a mobilização política nas igrejas é reduzida, e o discurso de "pânico moral" — que sugere que Lula fechará igrejas e promoverá uma agenda contrária aos valores evangélicos — perdeu força.
A desvantagem do presidente entre os evangélicos já é perceptível há meses nas pesquisas, indicando que os esforços do PT para recuperar o apoio desse grupo não têm trazido resultados significativos. Em algumas sondagens recentes, a diferença entre Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) chega a ultrapassar 50 pontos percentuais em simulações de segundo turno.
Entretanto, a preferência por Flávio não resulta de uma identificação forte dos evangélicos com o senador ou seu projeto eleitoral. De acordo com Luciana Andrade, coordenadora de pesquisas qualitativas da Quaest, em grupos focais, Flávio não é visto como uma figura próxima ao meio evangélico. Sua candidatura não gera entusiasmo entre os fiéis, que demonstram cansaço com a política e resistência até mesmo ao horário eleitoral gratuito.
"O eleitor evangélico não tem apego ao Flávio. Ele não representa o perfil evangélico que esse público encontra, por exemplo, na ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que possui um discurso religioso mais forte e um maior domínio da linguagem religiosa. O apoio ao Flávio está relacionado ao vínculo familiar — com Michelle e Jair — e a um desejo de renovação, especialmente diante do desgaste de Lula e da insatisfação com a situação econômica", afirma Andrade.
O antropólogo e historiador Juliano Spyer, autor de Crentes e Povo de Deus, critica a escolha de Janja da Silva como porta-voz da campanha junto aos evangélicos. Ele ressalta que a primeira-dama não é evangélica e já declarou ter laços com uma religião de matriz africana, o que, segundo ele, a distancia do movimento evangélico. Adicionalmente, Janja se apresenta como feminista, um termo que é rejeitado em certos setores das igrejas.
Spyer também comenta que o PT é um partido que não demonstra interesse ou afinidade com o tema evangélico. Embora afirme ter uma estratégia para dialogar com esse eleitorado, essa abordagem parece não estar funcionando. Ele observa que o patamar atual nas pesquisas é praticamente o mesmo de 2018, indicando que não houve mudanças significativas em oito anos. Apesar de várias iniciativas voltadas aos evangélicos, falta uma liderança que assuma a responsabilidade pela interlocução com esse grupo, o que é fundamental, considerando o tamanho desse eleitorado. As ações permanecem dispersas e ocorrem de maneira caótica, sem uma coordenação central adequada.



