Em 16 de junho de 1970, véspera da semifinal entre Brasil e Uruguai pela Copa do Mundo disputada no México, o escritor Carlos Drummond de Andrade publicou uma coluna no Jornal do Brasil em que comentava a transmissão do torneio pela TV. Ele próprio assistia às partidas em preto e branco, enquanto um grupo reduzido de pessoas acompanhava o evento em cores.
Drummond não via motivo para lamentar. Segundo o cronista, os que viam a Copa em preto e branco podiam exercitar livremente a imaginação visual. Ele descrevia a possibilidade de conceber o estádio de Jalisco com tonalidades deslumbrantes e os atletas mudando de matiz, efeitos que, em sua avaliação, só o cinema e os crepúsculos do Arpoador ofereciam.
O escritor citava que Pelé, Tostão, Rivellino, Jairzinho e Gérson podiam ser imaginados em cores vivas, como um arco-íris. Para ele, os poucos que assistiam à Copa em cores, reunidos a convite da Embratel diante de uma TV colorida, levavam desvantagem por já receberem o espetáculo pintado, sem espaço para criar cores novas. Drummond chegava a sugerir um convite para que esses privilegiados se juntassem aos que viam em preto e branco.
Na época, o país tinha cerca de quatro milhões de aparelhos de TV, e a maioria só recebia imagens em preto e branco. As transmissões do México já eram feitas por câmeras que captavam cores, e uma estimativa indicava que aproximadamente mil televisores importados no Brasil contavam com essa tecnologia. A coluna também mencionava postos da Embratel que reuniam autoridades e jornalistas para assistir aos jogos.



