O investidor que mantém 100% do patrimônio em ativos brasileiros está sujeito a riscos que muita gente ignora, segundo Pedro Bento. Em texto que compara o mercado financeiro ao surf, ele afirma que economias emergentes são mais voláteis que as desenvolvidas e que crises políticas, inflação, variação cambial, mudança de governo ou decisões do Banco Central podem sacudir a bolsa e corroer o patrimônio de quem está totalmente exposto a ativos locais.
A metáfora usada pelo autor é a de um surfista que só conhece uma praia. Se o mar está sem onda, ele fica na areia; se conhece várias, busca ondas em outro lugar, que pode estar a 20 quilômetros dali, com outra geografia e ângulo que captam melhor o swell. No mercado, isso se chama diversificação geográfica, conceito que Bento classifica como um dos mais importantes e menos praticados pelo investidor brasileiro médio.
A forma mais simples de começar, segundo ele, é manter parte do patrimônio em dólar, não porque o Brasil vai afundar, mas porque o real historicamente perde valor em relação à moeda americana ao longo do tempo. Quem guardou parte das economias em dólar nos últimos vinte anos teve o poder de compra preservado de uma forma que o real não entregou, afirma. Ele cita opções acessíveis na corretora e em reais, como BDRs (Brazilian Depositary Receipts, fundos de ações de empresas estrangeiras negociados na bolsa brasileira), fundos cambiais e ETFs de índices americanos como o S&P 500 e o Nasdaq.
Bento recorre ao surfista Medina para explicar a adaptação a diferentes ambientes. Quando Medina surfa em Pipeline, não usa as mesmas referências de quando surfa em Saquarema, pois o fundo, a direção e a potência da onda são diferentes. Investir no exterior funciona de modo parecido: mercados têm ciclos distintos, e enquanto o Brasil pode estar em crise, o mercado americano pode estar em expansão, ou a bolsa americana pode cair enquanto o mercado asiático sobe. Não é garantia de ausência de perdas, mas evita que todas as posições caiam ao mesmo tempo, mecanismo chamado de descorrelação.
Para quem quer começar, a recomendação é alocar de 5% a 10% do patrimônio em ativos dolarizados, o que já muda o perfil de risco da carteira. Um ETF que replica o S&P 500 disponível na bolsa brasileira dá acesso às 500 maiores empresas dos Estados Unidos. Com o tempo, o investidor aprende a ler outros índices e, quando o mar aqui ficar ruim, terá onda em outro lugar para surfar, conclui.



