As eleições de meio de mandato nos Estados Unidos, em 3 de novembro de 2026, retiraram dos republicanos o controle da Câmara dos Representantes e do Senado, impondo a Donald Trump uma derrota que vai além da alternância parlamentar. O resultado expressou insatisfação com os rumos do governo. A resposta de Trump, porém, foi aprofundar os aspectos mais controversos de sua administração, começando pela substituição de Susie Wiles por Stephen Miller na chefia de gabinete da Casa Branca.
Wiles representava a dimensão pragmática do governo, com capacidade de organização política e administração de conflitos. Já Miller é um dos principais formuladores ideológicos do trumpismo, ligado às políticas migratórias restritivas desde a campanha de 2016 e às operações de deportação em massa do segundo mandato. Seu perfil combativo e centralizador indica que Trump não atribui a derrota ao excesso de radicalismo, mas à falta de determinação para implementar sua agenda.
Pesquisas de boca de urna apontaram insatisfação com a economia, o custo de vida e políticas governamentais, além do desgaste causado pela condução da guerra contra o Irã. A escolha de Miller representa uma aposta na mobilização da base mais fiel em vez da reconquista dos moderados. O episódio envolvendo Dana White reforça essa estratégia: Trump anunciou ter oferecido ao presidente do UFC o cargo de secretário de imprensa da Casa Branca, sugerindo que lutadores integrassem sua equipe, o que transformaria a comunicação institucional em arena de confronto.
Com a perda das duas Casas do Congresso, a oposição ampliará a fiscalização, dificultará a aprovação de projetos e exigirá maior negociação institucional. A resposta tradicional seria ampliar a coalizão, mas Trump parece apostar na centralização presidencial e na intensificação de suas políticas. Ele conserva o mandato até janeiro de 2029, mas a derrota eleitoral impõe novos limites políticos.
O risco é que Trump interprete esses limites como obstáculos a serem enfrentados por uma presidência cada vez mais personalista. A troca de uma administradora pragmática por um ideólogo combativo e o convite a uma personalidade das artes marciais para a comunicação oficial traduzem a visão de que governar é lutar e que adversários são inimigos. Resta saber se o presidente compreendeu o recado das urnas; suas primeiras decisões sugerem que sim, mas a resposta escolhida foi acelerar a radicalização.



