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Como incorporar tempo run no seu treino

O treino conhecido como tempo run, também chamado de treino de limiar, é uma das ferramentas mais eficientes para melhorar o desempenho na corrida de...

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O treino conhecido como tempo run, também chamado de treino de limiar, é uma das ferramentas mais eficientes para melhorar o desempenho na corrida de média e longa distância. Seu objetivo é ensinar o organismo a sustentar um ritmo forte durante um período prolongado sem entrar rapidamente em fadiga. Em vez de correr no máximo da velocidade ou manter um trote leve, o corredor permanece em uma intensidade elevada, porém controlada, frequentemente descrita como um esforço “confortavelmente difícil”. Trata-se de um ritmo exigente, mas que ainda pode ser mantido por vários minutos de forma contínua.

Esse tipo de treinamento é especialmente importante porque a maioria das provas de corrida não é decidida por explosões curtas de velocidade, mas sim pela capacidade de manter um ritmo elevado durante longos períodos. O tempo run desenvolve exatamente essa habilidade, tornando o corredor mais eficiente tanto física quanto mentalmente.

O treino normalmente é dividido em três etapas. Primeiro realiza-se um aquecimento de aproximadamente 10 a 15 minutos em ritmo leve, preparando músculos, articulações e sistema cardiovascular para o esforço mais intenso. Em seguida vem a fase principal, na qual o corredor mantém um ritmo constante durante cerca de 20 a 60 minutos, dependendo do nível de condicionamento físico e dos objetivos do treinamento. Ao final, realiza-se um desaquecimento com uma corrida leve ou caminhada de aproximadamente 5 a 10 minutos para reduzir gradualmente a frequência cardíaca e facilitar a recuperação.

Na prática, o ritmo ideal do tempo run costuma ser cerca de 15 a 20 segundos mais lento por quilômetro do que o ritmo utilizado em uma prova de 5 quilômetros. Outra forma bastante utilizada para definir a intensidade é pela percepção subjetiva de esforço: em uma escala de 1 a 10, o exercício deve parecer um esforço entre 6 e 7. Durante esse ritmo, o corredor consegue dizer poucas palavras, mas manter uma conversa completa já se torna difícil devido à intensidade da respiração.

Embora muitos atletas utilizem a frequência cardíaca como referência, ela não deve ser o único parâmetro. O chamado limiar de lactato varia bastante entre indivíduos e depende de fatores como idade, nível de treinamento, condições ambientais e fadiga acumulada. Por isso, o ritmo da corrida, a percepção de esforço e a frequência cardíaca devem ser avaliados em conjunto, sem depender exclusivamente de um único número.

Grande parte dos benefícios desse treinamento está relacionada ao aumento do limiar de lactato. Durante qualquer exercício físico, o organismo produz lactato como parte do metabolismo energético. Ao contrário do que muitos acreditam, o lactato não é um resíduo prejudicial nem o responsável direto pela dor muscular. Na verdade, ele serve como uma importante fonte de energia para músculos, coração e cérebro. O problema ocorre apenas quando sua produção passa a ser mais rápida do que a capacidade do organismo de reutilizá-lo e removê-lo da circulação. Nesse momento, ocorre o acúmulo de metabólitos, aumentando a sensação de fadiga e reduzindo o desempenho.

Uma maneira simples de entender esse processo é imaginar uma pia com a torneira aberta. A água representa o lactato, enquanto o ralo simboliza a capacidade do organismo de removê-lo. Em uma corrida leve, pouca água entra na pia e o ralo consegue escoá-la facilmente. Em um sprint máximo, a torneira é aberta completamente, produzindo mais água do que o ralo consegue eliminar. Já o tempo run funciona como um treinamento para aumentar a capacidade desse “ralo”, permitindo que o corpo suporte intensidades maiores antes que ocorra o acúmulo excessivo de lactato.

Além disso, esse treinamento promove importantes adaptações aeróbicas. O coração torna-se mais eficiente ao bombear sangue, os pulmões melhoram a capacidade de captar oxigênio e os músculos desenvolvem maior quantidade de mitocôndrias, estruturas responsáveis pela produção de energia celular. Também ocorre aumento da densidade de capilares sanguíneos, melhorando o fornecimento de oxigênio e nutrientes às fibras musculares.

Outro benefício importante é a melhora da economia de corrida, conceito que descreve a quantidade de energia necessária para manter determinado ritmo. Um corredor com boa economia consegue correr mais rápido utilizando menos oxigênio e consumindo menos energia, o que faz enorme diferença em provas longas, como meias-maratonas e maratonas. Pequenas melhorias na eficiência biomecânica e metabólica podem representar vários minutos de vantagem ao longo de uma competição.

O tempo run também desenvolve aspectos psicológicos importantes. Sustentar um ritmo elevado por muitos minutos exige concentração, controle emocional e disciplina. Durante esse tipo de treino, o corredor aprende a lidar com o desconforto sem acelerar excessivamente nem reduzir o ritmo antes da hora, desenvolvendo resistência mental que costuma fazer diferença durante competições.

Encontrar o ritmo correto é fundamental. O esforço deve ser intenso, porém sempre controlado. A sensação deve ser de estar trabalhando duro, mas sem transformar o treino em uma competição. Ao final da sessão, o atleta deve sentir cansaço, porém ainda capaz de caminhar normalmente e recuperar-se relativamente rápido, sem necessidade de vários dias de descanso.

Para iniciantes, recomenda-se começar com aproximadamente 10 a 20 minutos contínuos nesse ritmo ou entre 1,5 e 3 quilômetros de corrida em intensidade de limiar. Conforme o condicionamento evolui, esse tempo pode aumentar progressivamente. Corredores mais experientes chegam a realizar blocos contínuos de até 19 quilômetros dentro de programas específicos para maratonas, embora esse tipo de treinamento seja reservado para atletas altamente condicionados.

Existem diferentes formas de realizar o tempo run. A versão tradicional consiste em um único bloco contínuo após o aquecimento. Outra alternativa são os chamados tempos fracionados, nos quais o esforço é dividido em blocos menores separados por breves períodos de recuperação ativa. Um exemplo seria realizar três séries de oito minutos em ritmo de limiar, intercaladas por um ou dois minutos de corrida leve. Essa estratégia facilita o controle do esforço, principalmente para corredores iniciantes.

Também existe o treino progressivo, no qual a corrida começa em intensidade leve e aumenta gradualmente até atingir o ritmo de tempo run nos quilômetros finais. Essa modalidade ensina o corredor a terminar forte sem desperdiçar energia no início da prova, além de desenvolver excelente controle de ritmo.

Alguns exemplos de sessões incluem um treino para iniciantes composto por 10 minutos de aquecimento, seguidos por 10 minutos em ritmo de limiar e mais 10 minutos de desaquecimento. Uma sessão intermediária pode incluir 15 minutos de aquecimento, entre 20 e 30 minutos contínuos em ritmo de limiar e 10 minutos de corrida leve ao final. Já corredores avançados podem realizar quatro blocos de 10 minutos em ritmo de limiar, separados por dois minutos de recuperação leve, sempre precedidos por aquecimento e finalizados com desaquecimento.

É importante diferenciar o tempo run do treinamento intervalado. Nos treinos intervalados, o atleta corre em intensidades significativamente mais altas, próximas da velocidade máxima, intercalando períodos de recuperação relativamente completos. Já o tempo run mantém um desconforto constante e controlado durante praticamente toda a sessão. Ambos possuem funções diferentes e podem fazer parte de um programa de treinamento equilibrado.

Para a maioria dos corredores, uma sessão semanal de tempo run é suficiente para obter ganhos consistentes sem comprometer a recuperação. Esse treino deve ser combinado com corridas leves, treinos longos e dias de descanso, formando um programa equilibrado. Corredores experientes podem incluir duas ou até três sessões semanais durante fases específicas da preparação, desde que as intensidades sejam distribuídas adequadamente e exista tempo suficiente para recuperação entre os treinos mais exigentes.

O aspecto mais importante é a progressão gradual. Em vez de aumentar a velocidade a cada semana, recomenda-se ampliar primeiro a duração dos blocos de esforço, permitindo que o organismo desenvolva as adaptações fisiológicas necessárias. A combinação adequada entre estímulo e recuperação é o que produz evolução consistente. Quando realizado corretamente, o tempo run melhora o condicionamento cardiovascular, eleva o limiar de lactato, aumenta a eficiência da corrida, fortalece a resistência mental e ajuda o corredor a sustentar velocidades maiores por períodos cada vez mais longos, tornando-se um dos treinamentos mais valiosos para quem busca evoluir no esporte.

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