Criar novos hábitos está longe de ser uma tarefa simples. Adotar uma nova rotina exige mudanças na forma de pensar, disciplina e repetição constante até que o comportamento se torne automático. No entanto, algumas estratégias podem facilitar esse processo, entre elas adaptar o tipo de atividade física às características da personalidade de cada pessoa.
Um estudo investigou se determinados traços de personalidade influenciam a preferência por diferentes intensidades de exercício físico, bem como o prazer obtido durante a prática. Os resultados indicam que a forma como cada indivíduo percebe e responde ao treinamento pode estar relacionada à sua personalidade, o que abre caminho para programas de exercícios mais personalizados e potencialmente mais eficazes para estimular a adesão a longo prazo.
Para realizar a pesquisa, os cientistas recrutaram inicialmente 132 voluntários da população em geral. Desses, 86 completaram todas as etapas do estudo. Os participantes responderam primeiro a um questionário on-line contendo informações demográficas, a Escala de Estresse Percebido (PSS-10) e uma versão reduzida do Inventário dos Cinco Grandes Fatores de Personalidade (BFI-10).
A Escala de Estresse Percebido avalia o quanto uma pessoa percebe sua vida como estressante. Já o Inventário dos Cinco Grandes Fatores mede cinco dimensões amplamente utilizadas pela psicologia para descrever a personalidade humana: extroversão, amabilidade, conscienciosidade, estabilidade emocional e abertura a novas experiências.
A estabilidade emocional está relacionada ao oposto do chamado neuroticismo. Pessoas com alta estabilidade emocional costumam ser mais calmas, resilientes e otimistas diante das dificuldades. Já indivíduos com baixa estabilidade emocional apresentam níveis mais elevados de neuroticismo, característica associada a ansiedade, irritabilidade, oscilações de humor e respostas mais intensas ao estresse.
Após essa etapa inicial, todos os participantes passaram por uma avaliação física em laboratório. Foram realizadas medições da composição corporal, que corresponde à proporção entre massa magra e gordura corporal, além de testes de força que incluíam flexões de braço, permanência em prancha e saltos verticais com as mãos apoiadas nos quadris.
A capacidade aeróbica também foi avaliada em uma bicicleta ergométrica. Inicialmente, os participantes realizaram um teste de baixa intensidade. Após um intervalo de repouso de 30 minutos, fizeram um teste de alta intensidade destinado a medir o VO₂ de pico, indicador que representa o maior consumo de oxigênio alcançado durante um esforço máximo e reflete a eficiência do organismo em utilizar oxigênio durante exercícios intensos.
Após cada sessão de exercícios, os voluntários classificavam o quanto haviam gostado da atividade utilizando uma escala de 1 a 7, em que 1 representava nenhuma satisfação e 7 indicava prazer máximo durante o exercício.
Concluída a avaliação inicial, os participantes foram divididos aleatoriamente em dois grupos. O grupo de controle recebeu orientação para manter seus hábitos habituais e realizar apenas uma rotina semanal de alongamentos com duração de 10 minutos.
Já o grupo de intervenção recebeu um monitor de frequência cardíaca e participou de um programa domiciliar de oito semanas composto por treinamento de ciclismo e exercícios de fortalecimento muscular.
O programa de ciclismo incluía três sessões semanais com diferentes intensidades: uma de baixa intensidade, uma em intensidade de limiar — correspondente ao ritmo em que o organismo começa a acumular lactato mais rapidamente — e uma sessão de treinamento intervalado de alta intensidade, conhecido como HIIT (High-Intensity Interval Training). Cada uma dessas sessões era realizada uma vez por semana, e a intensidade total do programa aumentava gradualmente ao longo das oito semanas.
Além do ciclismo, os participantes realizavam um treino semanal de força composto por três séries de oito repetições de agachamentos, avanços (lunges), flexões de braço, abdominais, elevações de panturrilha e ponte de glúteos. Após cada treino, eles registravam o quanto haviam apreciado aquela sessão de exercícios.
As avaliações realizadas antes do início do programa revelaram diversas associações entre personalidade e condicionamento físico. Pessoas com maior nível de extroversão apresentavam melhores indicadores de capacidade aeróbica, maior limiar anaeróbico — ponto em que o esforço físico passa a produzir mais lactato do que o organismo consegue remover — e maior potência máxima durante o exercício.
Já indivíduos com altos níveis de conscienciosidade apresentavam melhor desempenho nas flexões, conseguiam permanecer mais tempo na posição de prancha, praticavam mais horas semanais de atividade física e possuíam menor percentual de gordura corporal. A conscienciosidade é um traço associado à organização, disciplina e persistência.
Por outro lado, níveis elevados de neuroticismo estavam associados a uma recuperação mais lenta da frequência cardíaca após o exercício, independentemente do condicionamento físico dos participantes. Isso significa que o coração demorava mais para retornar aos níveis normais após o esforço.
Os pesquisadores também observaram que pessoas pertencentes a clubes de esportes de resistência, como grupos de corrida, tendiam a apresentar níveis mais elevados de extroversão e conscienciosidade.
Ao analisar o prazer sentido durante os exercícios, surgiram diferenças importantes. Participantes com maior neuroticismo relataram menor satisfação nas atividades de baixa intensidade realizadas em laboratório e também nos treinos realizados em intensidade de limiar.
Já a extroversão esteve associada a maior prazer tanto durante o teste máximo de VO₂ quanto nas sessões de HIIT. Pessoas com maior abertura a novas experiências e maior amabilidade demonstraram maior satisfação durante os treinos longos de baixa intensidade.
Em relação ao comprometimento com o programa, os participantes do grupo de intervenção com maiores índices de neuroticismo foram menos propensos a registrar regularmente seus dados de frequência cardíaca durante as oito semanas.
Curiosamente, indivíduos mais extrovertidos compareceram com menor frequência às avaliações finais após o término do programa, enquanto aqueles com maior abertura a novas experiências apresentaram maior taxa de comparecimento.
Ao final das oito semanas, todos os participantes do grupo de intervenção, independentemente de seus traços de personalidade, apresentaram melhorias significativas. Houve aumento do número de horas semanais dedicadas à atividade física, melhora da capacidade aeróbica medida pelo VO₂ de pico, aumento da potência máxima, maior número de flexões realizadas e maior tempo de permanência na posição de prancha.
Os participantes com altos níveis de conscienciosidade apresentaram ganhos menores na potência máxima, possivelmente porque muitos deles já possuíam melhor condicionamento físico antes do início do programa.
Os indivíduos com características mais extrovertidas registraram maior aumento do chamado RER de pico, ou razão de troca respiratória máxima, um parâmetro utilizado para estimar a intensidade do esforço durante testes de exercício. Valores mais elevados indicam que o organismo trabalhou em níveis de esforço mais intensos.
Outro resultado interessante mostrou que pessoas com altos níveis de extroversão ou neuroticismo tendiam a preferir exercícios de maior intensidade em comparação com atividades mais leves.
Segundo os pesquisadores, indivíduos com tendência ao neuroticismo podem tolerar melhor sessões de HIIT do que treinos vigorosos de longa duração. Isso ocorre porque exercícios muito prolongados podem oferecer mais tempo para que pensamentos negativos, preocupações e ansiedade interfiram no desempenho, enquanto o HIIT alterna períodos curtos de esforço intenso com intervalos de recuperação, reduzindo essa influência.
Já pessoas altamente conscienciosas demonstraram praticar exercícios principalmente pelos benefícios à saúde e pelo cumprimento de objetivos pessoais. Esse perfil costuma estabelecer metas claras e manter disciplina suficiente para alcançá-las. Por exemplo, alguém que define como objetivo completar seis meses de treinamento para uma maratona tende a seguir o planejamento até o fim.
Apesar dos resultados promissores, os pesquisadores destacam algumas limitações do estudo. Cerca de 70% dos participantes apresentavam altos níveis de abertura a novas experiências, conscienciosidade e estabilidade emocional, o que reduz a diversidade da amostra e pode limitar a generalização dos resultados.
Além disso, embora o estudo tenha utilizado o modelo dos Cinco Grandes Fatores da Personalidade, ele não avaliou características mais específicas, como perseverança (grit), ansiedade ou outras dimensões psicológicas que também podem influenciar a prática de exercícios.
Outra limitação importante é que o programa utilizou apenas ciclismo e exercícios com o peso do próprio corpo. Isso significa que as preferências observadas podem não se aplicar a outras modalidades esportivas. Uma pessoa que já não gosta de pedalar, por exemplo, dificilmente passará a apreciar o ciclismo apenas porque a intensidade do treino mudou.
Os resultados sugerem que adaptar programas de atividade física ao perfil psicológico de cada indivíduo pode aumentar o prazer durante os exercícios e favorecer a adesão a longo prazo. Em vez de recomendar exatamente o mesmo tipo de treinamento para todos, profissionais de saúde e educação física podem considerar aspectos da personalidade ao elaborar programas personalizados.
Ainda assim, não é necessário realizar testes psicológicos complexos para descobrir quais atividades proporcionam mais satisfação. A própria experiência costuma indicar quais modalidades despertam maior interesse e quais parecem mais difíceis de manter ao longo do tempo.
Também vale considerar fatores além da personalidade. Algumas pessoas sentem-se motivadas ao praticar atividades em grupo, como aulas coletivas, esportes em equipe, grupos de corrida ou ciclismo. Outras preferem atividades individuais, treinos personalizados ou exercícios realizados apenas com um amigo.
Mesmo quem afirma não gostar de exercícios pode se beneficiar ao incorporar mais movimento na rotina diária. Movimentar-se regularmente não exige necessariamente um programa estruturado de treinamento. Levantar-se da mesa de trabalho a cada 30 minutos para caminhar por um ou dois minutos, optar pelas escadas em vez do elevador, transportar menos sacolas por vez ao descarregar compras ou até mesmo colocar música para tocar enquanto realiza tarefas domésticas são formas simples de aumentar o nível de atividade física.
O mais importante é tornar o movimento uma parte natural da rotina. À medida que o corpo se adapta e a prática se torna mais familiar, cresce também a probabilidade de desenvolver interesse por formas mais estruturadas de exercício, favorecendo ganhos graduais para a saúde física e mental.
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