A relação da política com os jovens frequentemente se caracteriza por um misto de paternalismo e desconfiança. Historicamente, essas gerações foram vistas como idealistas ingênuos ou até mesmo como instrumentos de manobra. Contudo, a realidade mostra que, quando se organizam em torno de uma causa comum, conseguem alterar os rumos do poder. A legitimidade política, em última instância, depende do consentimento social.
Recentemente, um movimento espontâneo de estudantes e jovens tomou as ruas de diversas cidades da Índia, protestando contra um sistema de exames nacional marcado por fraudes e desigualdade. Os manifestantes, inicialmente chamados de “baratas” de forma pejorativa, ressignificaram o termo, adotando-o como uma identidade política. Esse nome simboliza a resistência e a persistência, já que, assim como as baratas, eles sempre voltam, independentemente das tentativas de silenciamento.
A pressão popular foi tão intensa que o primeiro-ministro Narendra Modi aceitou a renúncia do ministro da Educação, Dharmendra Pradhan, e prometeu realizar mudanças significativas no sistema de exames. Em uma democracia com um Executivo forte, essa concessão possui um significado político considerável, evidenciando que até governos com grande respaldo popular necessitam da confiança da sociedade para se manterem estáveis.
Exemplos históricos ajudam a compreender essa dinâmica. Em maio de 1968, a França testemunhou um movimento iniciado por estudantes que rapidamente se expandiu, culminando em uma greve geral que envolveu cerca de dez milhões de trabalhadores. A mobilização naquela época não buscava apenas o poder, mas um retorno da política à escuta da sociedade. O mesmo se viu em Brasília em 1992 e, futuramente, pode se repetir em Nova Délhi em 2026.
Esses eventos demonstram que a juventude não almeja somente ocupar espaços de poder, mas exige que as vozes da sociedade sejam levadas em consideração. Essa distinção é fundamental para entender a diferença entre movimentos significativos e meros episódios de contestação. A legitimidade política não se origina apenas das urnas, mas da confiança contínua do público.
A experiência dos jovens indianos, dos estudantes de 1968 Na França e dos caras-pintadas no Brasil ensina que a democracia se enfraquece quando a juventude sente que não é ouvida. Governantes podem mudar, partidos podem desaparecer, mas a história revela uma constante: quando uma geração decide que não aceita mais a realidade, a política é forçada a se transformar.



