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Saúde

Artigo – O que você espera da sua velhice?

É muito comum ouvir um jovem dizer que não pensa na velhice e que, se viver até os 60 anos, “já está de bom tamanho”....

Dr. Luiz Antônio da Silva Sá é especialista em Clínica Médica, Geriatria, Gerontologia e professor da Faculdade Evangélica Mackenzie do Paraná (FEMPAR)
Dr. Luiz Antônio da Silva Sá é especialista em Clínica Médica, Geriatria, Gerontologia e professor da Faculdade Evangélica Mackenzie do Paraná (FEMPAR)

É muito comum ouvir um jovem dizer que não pensa na velhice e que, se viver até os 60 anos, “já está de bom tamanho”. Mal sabe ele que a longevidade humana é cada vez maior: atualmente, a expectativa de vida ultrapassa os 80 anos, destacando-se expressivamente entre as mulheres.

Diante disso, o que esperar dos tantos anos que nos restam? Como estamos nos preparando? O que estamos fazendo para viver mais e melhor? São perguntas complexas e para as quais muitos não encontram respostas imediatas, preferindo focar apenas no presente, ao compasso do famoso verso popular: “deixa a vida me levar”. Contudo, a realidade se impõe de forma diferente. O tempo passa com extrema celeridade, sem que nos demos conta; quando percebemos, os anos se esvaíram e nos deparamos com a velhice.

Propomos, a seguir, algumas reflexões éticas sobre o envelhecimento:

• Processo natural: Envelhecer é uma etapa intrínseca ao desenvolvimento humano, que se inicia na concepção e cessa apenas com a morte.
• Valor inalterável: Mudanças na aparência física e no comportamento são inevitáveis, mas jamais devem diminuir o valor intrínseco da pessoa humana, sua razão de viver ou sua capacidade de aprender.
• Adaptação e perda: É fundamental considerar as perdas que acompanham o envelhecimento, exigindo resiliência e adaptação às sucessivas transformações.
• Estabilidade emocional: Na velhice, o indivíduo pode se tornar mais consciencioso, tranquilo e estável, libertando-se de tormentos emocionais outrora intensos.
• Autocontrole: Supõe-se que os idosos possuam maior controle sobre suas emoções em comparação aos mais jovens.
• Resiliência: Em contraste com os adultos jovens, os idosos tendem a reagir de maneira mais madura ao luto e às mais variadas frustrações, demonstrando superior capacidade de superação.
• Aceitação: A aceitação do próprio envelhecimento é o que abre as portas para o cuidado solidário e para um enfrentamento digno da finitude da vida.

A velhice pode se estender por uma longa fase — talvez a mais duradoura da existência, compreendendo 30 anos ou mais. Ela pode ser marcada por mágoas, ressentimentos e sentimentos de desvalia, ou, inversamente, ser vivenciada com compreensão, aceitação e a serenidade da missão cumprida. Esse desfecho dependerá de como cada indivíduo encara o próprio tempo, de suas queixas e de como conduziu sua biografia.

Em nossa longa experiência de convivência com a população idosa, observamos que os arrependimentos e queixas mais recorrentes orbitam os seguintes pontos:

• Negligência da própria história: O sentimento de ter vivido para agradar aos outros, postergando os desejos pessoais. A consequência, muitas vezes, é a solidão na velhice, acentuada pelo distanciamento dos filhos.
• Repressão de sentimentos: A ausência de demonstrações de afeto e amor ou, no extremo oposto, a omissão de contrariedades e insatisfações, acumulando um pesado fardo de mágoas e rancores ao longo da vida.
• Inabilidade em impor limites: O hábito de não saber dizer “não”, silenciando diante de fatos que deveriam ter sido contestados no momento oportuno.
• Privação de lazer e convívio: O arrependimento por não ter viajado mais, por não ter se divertido ou compartilhado tempo com amigos — que, frequentemente, oferecem maior compreensão recíproca do que os próprios familiares.
• Ausência em celebrações: O distanciamento de festas e celebrações familiares (aniversários, casamentos) sob a constante justificativa de falta de tempo ou de recursos financeiros.
• Excesso de trabalho: O foco excessivo no trabalho, na busca por riqueza, poder ou herança, em detrimento do lazer e do tempo de qualidade com a família e amigos.
• Abandono do autocuidado: O erro de não ter buscado a própria felicidade, priorizando excessivamente o cuidado alheio em prejuízo de si mesmo.

Esses desabafos servem como bússola e revelam muito sobre o destino da nossa própria velhice. Por essa razão, cabe-nos decidir, desde a juventude, qual panorama desejamos para o nosso futuro. Podemos trilhar um caminho de sombras — caracterizado pelo isolamento, desolação, ressentimentos, tristeza e rancor — ou um caminho de luz, pautado pelo otimismo, bom humor, resiliência, saúde física e mental, cultivo do perdão e, acima de tudo, por um profundo sentido e propósito de vida. A escolha pertence, exclusivamente, a cada um de nós.

“Todos os homens desejam alcançar a velhice, adiando a morte, mas, ao ficarem velhos, se lamentam. Eis aí a inconsequência da estupidez! Os prazeres de uma velhice madura e produtiva é um tempo para ser invejado, e não desprezado. Nada é mais pueril que não aceitar as mudanças que o passar dos anos trazem em nossas vidas.” Cícero 44 aC

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