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Cientistas estão desvendando como fazer ouro a partir do chumbo

[ad_1] A ciência moderna se distanciou da alquimia praticada por estudiosos do passado, mas a motivação central permanece a mesma: compreender melhor o funcionamento do...

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A ciência moderna se distanciou da alquimia praticada por estudiosos do passado, mas a motivação central permanece a mesma: compreender melhor o funcionamento do mundo. Enquanto hoje pesquisadores investigam a origem do universo e fenômenos astronômicos complexos, antigos alquimistas tinham objetivos mais diretos, como a chamada crisopéia, termo usado para definir a criação artificial do ouro.

Embora nenhum alquimista tenha alcançado esse objetivo, a transmutação de ouro é algo que a ciência contemporânea consegue realizar, ao menos em teoria, ainda que de forma extremamente limitada e custosa.

Do ponto de vista químico, o chumbo e o ouro são elementos muito diferentes. No entanto, em nível atômico, a distinção entre eles está apenas no número de prótons presentes no núcleo. O chumbo possui 82 prótons, enquanto o ouro tem 79.

Isso significa que, se fosse possível remover exatamente três prótons do núcleo de um átomo de chumbo, ele se transformaria em ouro. O grande desafio é que a ciência ainda não consegue controlar com precisão quantos prótons são retirados em cada processo. O que se faz, na prática, é provocar inúmeras tentativas até que, por acaso, algumas resultem na remoção exata desses três prótons.

Esse processo é complexo porque o núcleo do chumbo é altamente estável, mantido por uma força eletromagnética intensa. Para superar essa estabilidade, físicos utilizam colisões quase diretas entre partículas aceleradas a velocidades próximas à da luz.

Quando essas partículas passam muito perto umas das outras, seus campos eletromagnéticos interagem brevemente, podendo arrancar prótons do núcleo do chumbo. Dependendo do número de prótons removidos, o átomo pode se transformar em tálio, mercúrio ou, em raríssimos casos, ouro.

Na prática, esse método depende muito do acaso. As quantidades de ouro produzidas são extremamente pequenas, os custos energéticos são elevados e o processo não é confiável. Por isso, apesar de tecnicamente possível, a produção de ouro dessa forma está muito longe de ter qualquer aplicação econômica.

Um dos casos mais conhecidos ocorreu no Grande Colisor de Hádrons, operado por um consórcio internacional de pesquisadores. Durante o experimento ALICE, criado para estudar colisões de partículas pesadas e simular condições semelhantes às do universo logo após o Big Bang, núcleos de chumbo foram acelerados e lançados uns contra os outros a velocidades próximas à da luz. Nesse processo, foram formados cerca de 86 bilhões de núcleos de ouro. Apesar do número parecer elevado, a massa total gerada corresponde a apenas trilionésimos de grama, um valor completamente irrelevante do ponto de vista material.

Além disso, esse ouro não pode ser utilizado como o ouro comum. A quantidade é tão pequena que não pode ser observada por métodos físicos convencionais, sendo detectada apenas por instrumentos extremamente sensíveis, capazes de medir variações mínimas no número de prótons e nêutrons.

Os átomos de ouro formados também são altamente instáveis e existem por menos de um microssegundo antes de se fragmentarem ou colidirem com os equipamentos do acelerador, o que torna o fenômeno mais um efeito colateral dos experimentos do que um resultado aproveitável.

Essa não foi a primeira vez que cientistas conseguiram produzir ouro artificialmente. Em 1941, pesquisadores conseguiram transmutar mercúrio em ouro por meio do bombardeio com nêutrons rápidos, mas o resultado foi um isótopo instável e altamente radioativo.

Em 1980, uma equipe liderada por Glenn T. Seaborg, cientista que deu nome ao elemento seabórgio, obteve ouro a partir de isótopos de bismuto. Na época, os próprios pesquisadores afirmaram que o chumbo também poderia ser usado, mas a instabilidade do ouro produzido tornaria o processo ainda mais difícil de observar e separar.

Em 2002 e 2004, outra equipe de físicos conseguiu documentar a transmutação de chumbo em ouro utilizando colisões quase diretas, em uma escala menor. Anos depois, experimentos semelhantes foram realizados com maior intensidade, incluindo testes que transformaram núcleos de urânio em pequenas quantidades de ouro. Mesmo com esses avanços, as quantidades obtidas continuam sendo microscópicas.

Apesar de representar um marco científico e simbólico, a criação artificial de ouro permanece limitada a experimentos de física de alta energia. O custo, a complexidade e a instabilidade do material produzido fazem com que essa antiga ambição da alquimia continue, na prática, distante de qualquer uso cotidiano, servindo sobretudo para ampliar o entendimento humano sobre a estrutura da matéria.

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