Como o cérebro percebe idiomas desconhecidos

Estudos recentes revelam o funcionamento cerebral em relação a linguagens não dominadas

Como o cérebro percebe idiomas desconhecidos
Entender idiomas estrangeiros exige familiaridade auditiva; a percepção sonora se constrói com prática e exposição. Imagem. Foto: Shutterstock/Vitalii Vodolazskyi

Pesquisadores explicam como o cérebro aprende a reconhecer palavras em idiomas desconhecidos.

Como o cérebro reage a idiomas desconhecidos

Quando ouvimos alguém falando em uma língua que não conhecemos, como idiomas desconhecidos, tudo pode soar confuso. Pesquisadores da Universidade da Califórnia em São Francisco (UCSF) descobriram os mecanismos que explicam essa sensação. Dois novos estudos revelam como o cérebro aprende a identificar onde uma palavra termina e onde a próxima começa, e por que esse processo é eficaz apenas em idiomas que dominamos.

O papel do giro temporal superior (GTS)

A percepção de palavras em uma língua familiar não está relacionada a pausas na fala — que geralmente são inexistentes —, mas sim a um aprendizado acumulado ao longo de anos. Durante muito tempo, acreditou-se que a habilidade de separar mentalmente as palavras estava ligada a regiões do cérebro responsáveis pela interpretação do significado. No entanto, os novos estudos revelam que o giro temporal superior (GTS) desempenha um papel fundamental nesse processo.

O GTS, uma área do cérebro conhecida por processar sons básicos, como vogais e consoantes, é responsável por aprender padrões sonoros ao longo da vida. Essa habilidade permite que o cérebro reconheça automaticamente o início e o fim das palavras na língua nativa, algo que não ocorre quando ouvimos um idioma desconhecido.

Ativação neuronal em idiomas conhecidos

Um dos estudos, publicado na revista Nature, envolveu voluntários monitorados para epilepsia que ouviram frases em inglês, espanhol e mandarim, algumas em idiomas que conheciam e outras em línguas que não dominavam. Os resultados mostraram uma ativação neuronal significativa apenas em idiomas conhecidos. Em contraste, ao ouvir idiomas desconhecidos, a ativação quase não ocorreu.

Os cientistas usaram modelos de aprendizado de máquina para explorar essa relação, encontrando uma conexão direta entre a familiaridade linguística e a atividade neuronal. “Isso explica um pouco da mágica que nos permite entender o que alguém está dizendo”, afirmou Ilina Bhaya-Grosmman, primeira autora do estudo.

O ritmo da fala e a ‘reinicialização’ do cérebro

O segundo estudo, publicado na revista Neuron, abordou como os neurônios especializados no GTS conseguem acompanhar o ritmo rápido da fala, permitindo que falantes fluentes articulem várias palavras por segundo. A pesquisa revelou que, ao reconhecer uma palavra, o cérebro se reorganiza quase instantaneamente, retomando a “leitura” do zero para cada nova palavra.

Essa descoberta é crucial para entender por que lesões em determinadas áreas do cérebro podem comprometer a compreensão da fala, mesmo que a audição esteja intacta. A compreensão real exige que esse circuito especializado funcione plenamente.

Implicações para o aprendizado de idiomas

Os estudos demonstram que entender uma língua estrangeira não depende apenas do vocabulário ou da gramática, mas também da familiaridade com seus padrões sonoros. Aqui estão alguns pontos importantes para quem está aprendendo outro idioma:

  • O cérebro só separa palavras quando reconhece padrões sonoros;
  • A ativação neuronal não ocorre em línguas desconhecidas;
  • A ‘reinicialização’ a cada palavra facilita a compreensão rápida;
  • A percepção auditiva melhora com a exposição contínua;
  • O aprendizado envolve anos de experiência, não apenas memorização.

Esses achados ajudam a entender por que, no início, ouvir outra língua parece um grande borrão: o cérebro ainda não sabe onde uma palavra termina e outra começa.

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