Por Pedro Ernesto Macedo
Existe uma mudança silenciosa acontecendo no jornalismo brasileiro.Ela não começou com os podcasts nem com as redes sociais, mas encontrou nesse ambiente o cenário perfeito para crescer. Nunca houve tantas entrevistas. Nunca tantas pessoas tiveram um microfone diante de si. Nunca foi tão fácil perguntar. Paradoxalmente, nunca foi tão difícil ouvir.
Em muitos programas, o entrevistador deixou de ser o mediador da conversa para se tornar seu protagonista. Faz discursos maiores do que as respostas, interrompe raciocínios, antecipa conclusões, disputa espaço com o convidado e, muitas vezes, transforma quem aceitou dar a entrevista em uma escada para construir a própria imagem.
Não escrevo isso como uma crítica aos colegas. Escrevo como alguém apaixonado pela arte de entrevistar. Acredito que uma boa entrevista não pode acontecer como um espetáculo do entrevistador. Ela é uma janela aberta para que o público conheça melhor quem está do outro lado da mesa.
O entrevistador, na verdade, é apenas a ponte. Quando a ponte chama mais atenção do que a paisagem, alguma coisa saiu do lugar. Talvez essa convicção tenha nascido da união entre duas paixões que sempre caminharam comigo: o jornalismo e o teatro. Muita gente estranha quando digo que sou ator. Para mim, porém, essas duas profissões nunca estiveram separadas.
Foi justamente no teatro que compreendi uma das maiores lições da comunicação: ninguém revela sua verdade quando se sente observado o tempo todo. O bom ator conhece profundamente a natureza humana. Aprende a perceber intenções, hesitações, medos, silêncios e contradições. E descobre que, muitas vezes, aquilo que não é dito comunica mais do que qualquer fala.
Levei essa compreensão para o jornalismo. Ao longo dos anos, construí um personagem. Não um personagem para interpretar alguém que não sou, mas uma forma de conduzir entrevistas capaz de provocar reflexões, quebrar discursos prontos e criar espaço para que o entrevistado deixe de representar um papel. Provocar nunca significou constranger, e, sim, despertar um pensamento. É fazer uma pergunta que o entrevistado talvez nunca tenha feito a si mesmo.
Essa maneira de enxergar a comunicação foi profundamente influenciada por um escritor que me acompanha há muitos anos: Fiódor Dostoiévski. Seus romances não são apenas histórias. São investigações da alma humana. Seus personagens não são heróis nem vilões. São pessoas contraditórias, imperfeitas, inquietas. Quase nunca dizem exatamente o que sentem. Revelam quem realmente são nos conflitos, nas pausas, nas hesitações e, principalmente, quando deixam de controlar a própria narrativa.
Talvez seja por isso que Dostoiévski tenha escrito que “o homem é um mistério; é preciso decifrá-lo”. Sempre interpretei essa frase como um convite permanente à observação. Uma entrevista também é uma tentativa de decifrar esse mistério.
Não para expor alguém, mas para compreendê-lo. É por isso que nunca tive interesse na vida privada dos meus entrevistados. Não me interessa o escândalo, nem a curiosidade vazia. O que me fascina é entender como uma pessoa constrói suas convicções, como organiza seus pensamentos, quais dúvidas carrega e quais contradições tenta esconder; muitas vezes até de si mesma.
Existe um momento curioso em quase toda entrevista. O entrevistado termina a resposta que havia preparado. É nesse instante que muitos jornalistas fazem outra pergunta. Eu prefiro esperar. Aprendi que o silêncio não é ausência de comunicação. O silêncio é uma pergunta. Os segundos de pausa costumam provocar um pequeno desconforto. E é justamente desse desconforto que nasce a melhor parte da conversa. Quase sempre a pessoa continua falando. A partir desse momento, sem roteiro, sem defesa. Sem personagem.
Dostoiévski compreendia como poucos que o ser humano não é uma criatura lógica. Somos feitos de paradoxos. Dizemos uma coisa, sentimos outra e, frequentemente, descobrimos nossos próprios pensamentos enquanto falamos. Acredito que entrevistar exige muito mais do que elaborar boas perguntas.
É preciso sensibilidade, perceber quando insistir, quando mudar de assunto, quando provocar. E, principalmente, quando calar. Existe uma diferença enorme entre escutar para responder e escutar para compreender. Tenho a impressão de que estamos desaprendendo essa diferença. Vivemos cercados por respostas rápidas, cortes de poucos segundos, frases de efeito e algoritmos que premiam quem fala mais alto. Mas profundidade nunca nasceu da pressa.
A inteligência artificial poderá organizar informações, resumir livros e escrever textos cada vez melhores. Mas ainda existe uma habilidade essencialmente humana que nenhuma máquina consegue reproduzir plenamente: compreender outra pessoa enquanto ela pensa em voz alta.
É isso que procuro fazer em cada entrevista. Antes de conversar com alguém, estudo sua trajetória, leio livros, pesquiso referências, escrevo perguntas. Quase sempre abandono todas elas. O roteiro serve apenas para chegar até a conversa. Jamais para aprisioná-la. Entrevistar é uma arte. E, como toda arte, exige técnica, disciplina, estudo e, sobretudo, humildade.
Talvez o maior equívoco do nosso tempo seja acreditar que entrevistar significa apenas fazer perguntas. Não. Entrevistar é construir um ambiente em que alguém se sinta seguro para pensar. É representar o público com honestidade, fazendo as perguntas que ele faria se estivesse sentado diante daquele convidado. É saber interromper quando necessário, mas também permitir que o silêncio complete uma ideia. É compreender que uma grande entrevista não produz apenas manchetes.
Produz entendimento. No fim das contas, continuo acreditando que o entrevistador ideal é aquele que desaparece durante a conversa. Quando isso acontece, quem realmente aparece é o entrevistado. E é exatamente isso que o público foi buscar.
Pedro Ernesto Macedo é jornalista, entrevistador, comunicador e autor do livro A Frequência da Comunicação. Com mais de 7 mil entrevistas realizadas, tornou-se referência na condução de conversas que unem informação, profundidade e sensibilidade. Apresenta os programas Entre Ideias, Frente a Frente e Show do Agro, levando ao público entrevistas com grandes nomes do agronegócio, da economia e de diferentes áreas da sociedade.




