A massa livre de gordura, conhecida pela sigla FFM, do inglês fat-free mass, corresponde a tudo o que existe no corpo, exceto a gordura corporal. Isso inclui músculos, água, ossos e órgãos. Em pesquisas científicas, o termo é frequentemente utilizado como sinônimo de massa magra para avaliar quanto tecido corporal livre de gordura uma pessoa ganhou ou perdeu durante um estudo, embora seja importante compreender que a massa livre de gordura não representa exclusivamente a musculatura.
Essa medida também é utilizada para investigar qual seria o limite natural de desenvolvimento muscular de uma pessoa, isto é, a quantidade de massa muscular que ela poderia adquirir sem recorrer a substâncias que aumentam artificialmente o desempenho, como os esteroides anabolizantes.
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Para estimar essa característica, pesquisadores utilizam o índice de massa livre de gordura, conhecido pela sigla FFMI, do inglês fat-free mass index. Seu cálculo é relativamente simples: divide-se a massa livre de gordura, expressa em quilogramas, pelo quadrado da altura, expressa em metros. Por exemplo, uma pessoa com 1,80 metro de altura e 75 quilogramas de massa livre de gordura apresenta um FFMI de aproximadamente 23,1.
Pesquisas anteriores popularizaram a ideia de que o FFMI de praticantes de musculação naturais não ultrapassaria 25. Essa conclusão se baseou, em grande parte, em um estudo publicado em 1995 que avaliou apenas 74 praticantes de musculação. Nenhum dos participantes considerados naturais apresentou um índice superior a esse valor.
A partir daí, o número 25 passou a ser frequentemente tratado como um limite definitivo para o desenvolvimento muscular sem o uso de substâncias ergogênicas. Entretanto, essa interpretação não é sustentada de maneira conclusiva pelas evidências disponíveis. Há registros de fisiculturistas das décadas de 1940 e de períodos anteriores, considerados parte da chamada era pré-esteroides, cujos índices ultrapassavam esse patamar.
Uma nova revisão científica conduzida por Trexler e colaboradores reuniu pesquisas já existentes para investigar quanto de massa livre de gordura as pessoas podem adquirir naturalmente. Os autores identificaram diversos relatos de atletas submetidos a testes antidoping que apresentavam FFMI superior a 25. Entre os exemplos mencionados estão um jogador universitário de futebol americano com índice de 31,7 e alguns lutadores de sumô com índices superiores a 36.
No entanto, esses últimos casos exigem cautela na interpretação, pois a elevada quantidade de gordura corporal desses atletas pode influenciar o resultado do índice, que considera toda a massa corporal livre de gordura, e não apenas os músculos. Além disso, estar submetido a testes antidoping não significa necessariamente que um atleta nunca tenha utilizado substâncias proibidas.
A revisão também analisou dados de atletas universitários do sexo masculino e identificou que o percentil 97,5 do FFMI era de aproximadamente 28. Isso significa que cerca de 97,5% dos atletas avaliados apresentavam índices iguais ou inferiores a esse valor, enquanto aproximadamente 2,5% o ultrapassavam — o equivalente a cerca de um em cada 40 atletas.
Esse resultado pode ser considerado uma referência prática para estimar a extremidade superior da distribuição observada em uma população, pois evita que um único indivíduo excepcionalmente musculoso determine, sozinho, o limite de referência. Contudo, trata-se de uma estimativa estatística baseada em uma população específica, e não de uma comprovação de que qualquer pessoa consiga alcançar esse índice.
Existe, porém, uma ressalva importante: atletas submetidos a testes antidoping não são necessariamente pessoas que nunca utilizaram substâncias para melhorar o desempenho. É possível que alguns indivíduos consigam evitar a detecção por meio de estratégias como o planejamento do período de uso de determinadas substâncias ou o emprego de agentes que dificultem a identificação de seu consumo.
Por essa razão, os resultados de estudos com atletas testados não permitem estabelecer com absoluta certeza quais índices foram alcançados exclusivamente por meios naturais. Essa limitação dificulta a definição de um teto biológico preciso para o desenvolvimento muscular humano.
Considerando o conjunto das evidências, o índice de 25 não deve ser tratado como uma barreira natural absoluta. Um FFMI na faixa superior dos 20, especialmente entre homens com genética favorável e muitos anos de treinamento consistente, parece plausível, embora não seja possível determinar com exatidão até onde alguém pode chegar sem recorrer a substâncias proibidas. Os valores encontrados na literatura devem ser interpretados como referências aproximadas, e não como limites rígidos aplicáveis a todas as pessoas.
Também é importante lembrar que o FFMI apresenta limitações: ele inclui água, ossos e órgãos, além da musculatura, e pode variar conforme o nível de gordura corporal, a hidratação e o método utilizado para estimar a composição corporal.
Portanto, um índice elevado não comprova, por si só, que alguém tenha desenvolvido toda a sua musculatura naturalmente, assim como um índice mais baixo não significa que a pessoa tenha atingido seu potencial máximo.
Para a maioria dos praticantes de musculação, acompanhar a evolução da força, da composição corporal, das medidas e do desempenho ao longo do tempo é mais útil do que se comparar rigidamente a um número considerado ideal.
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