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Reposição hormonal: o medo que envelheceu mal

Reposição hormonal: o medo que envelheceu mal Você já deve ter ouvido de alguém — talvez da sua própria mãe — que hormônio na menopausa...

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Reposição hormonal: o medo que envelheceu mal
Você já deve ter ouvido de alguém — talvez da sua própria mãe — que hormônio
na menopausa “dá câncer”. Essa frase circula há mais de vinte anos e ainda
hoje afasta mulheres de um tratamento que poderia aliviar ondas de calor,
insônia e perda de qualidade de vida. O problema é que ela nasceu de uma
leitura apressada de um estudo, e a ciência já andou muito desde então.
Em 2002, o estudo americano Women’s Health Initiative assustou o mundo ao
associar a terapia hormonal a mais casos de câncer de mama. O que pouco se
explicou na época é que as participantes tinham entre 50 e 79 anos — muitas
décadas após a menopausa — e usavam uma combinação hormonal específica,
diferente das opções disponíveis hoje, com alguns hormônios sintéticos, doses
e vias inadequadas para determinadas mulheres. Reanálises publicadas nos anos
seguintes, incluindo acompanhamento de mais de dez anos das mesmas
participantes, mostraram algo que raramente chega ao grande público: no grupo
que usou apenas estrogênio, sem progestagênio, não houve aumento de câncer de
mama — pelo contrário, houve redução de mortalidade pela doença.
Isso não significa que hormônio seja isento de risco. Significa que risco não
é a mesma coisa para todo mundo, e essa distinção importa.
A Menopause Society (antiga NAMS), em seu posicionamento de 2022, é clara:
para mulheres saudáveis, sintomáticas, com menos de 60 anos ou até dez anos
após a última menstruação, os benefícios da terapia hormonal sobre qualidade
de vida e saúde óssea tendem a superar os riscos. E essa janela de
oportunidade deve sempre ser revista e individualizada. Não há aumento de
câncer de mama associado ao uso combinado com progesterona natural, conforme
estudo já publicado por Agnes Fournier com 80.377 mulheres em 2008.
Também existe hoje mais clareza sobre o tipo de hormônio. Estudos
observacionais indicam que a via de administração e o tipo de progestagênio
influenciam o risco: formulações com progesterona natural micronizada, por
exemplo, parecem ter perfil mais favorável do que progestinas sintéticas mais
antigas. É por isso que a prescrição não pode ser genérica — o hormônio
certo, na dose certa, pela via certa, para a mulher certa, no momento certo,
é o que a boa prática clínica busca.
Nada disso é convite para automedicação, e nenhuma mulher com histórico
pessoal de câncer de mama ou outras contraindicações deve iniciar terapia
hormonal sem avaliação individualizada — isso continua valendo, sem exceção.
O que mudou é a forma como a medicina entende o equilíbrio entre risco e
benefício quando a indicação é bem-feita.
Se você adiou essa conversa com seu médico por medo de um risco que talvez
nem se aplique ao seu caso, talvez seja hora de retomá-la — não com pressa, e
não com a ciência de vinte anos atrás.

Dra. Mariana Halla — médica especialista em saúde feminina, menopausa e
longevidade.

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