Novas tecnologias surgem e desaparecem todos os anos. Quem acompanha a CES, em Las Vegas, há mais de uma década acaba testemunhando não apenas as mudanças de direção da indústria, mas também a reação dos consumidores a cada novidade. De tempos em tempos, porém, surge algum produto que ultrapassa a condição de simples tendência e acaba definindo uma geração inteira. É fácil associar determinadas tecnologias a períodos específicos, como o primeiro Sony PlayStation, o Walkman ou até mesmo automóveis como o Nissan Skyline GT-R.
Mas, para cada produto de uma geração que é lembrado com carinho e, em alguns casos, continua sendo mantido em funcionamento por fãs, existem outros que preferiríamos esquecer. E há ainda uma categoria muito mais rara: produtos que fizeram sucesso inicialmente, mas que acabaram se revelando perigosos para os consumidores. São dispositivos capazes de provocar ferimentos ou, em situações mais graves, até mesmo causar mortes.
Ao longo da história da tecnologia, houve desde aparelhos extremamente populares que podiam explodir enquanto estavam no bolso até produtos tão perigosos que contribuíram para a mudança das normas de segurança em setores inteiros. Também existem dispositivos de uso cotidiano que, somente depois de sua popularização, tiveram seus riscos identificados. Assim, é surpreendente perceber quantos produtos tecnológicos e inovações, grandes ou pequenos, foram ou ainda podem ser considerados inseguros em determinadas condições de uso.
A Samsung é, há anos, uma das principais fabricantes de smartphones Android e começou a lançar dispositivos da linha Galaxy em 2009. Desde então, a empresa produziu aparelhos de diferentes categorias e faixas de preço, desde modelos mais acessíveis da linha Galaxy A até smartphones avançados e caros, como o Galaxy S26 Ultra, além de tablets Galaxy destinados a diferentes públicos.
Durante parte desse período, a linha Galaxy Note ocupava a posição de principal família de smartphones premium da Samsung e tinha como característica central a chamada computação por caneta. Os aparelhos combinavam uma caneta eletrônica, uma tela sensível à pressão e telas grandes, buscando reunir algumas das vantagens de um tablet e de um smartphone em um único dispositivo. A linha fez bastante sucesso, mas sua trajetória teve um dos maiores problemas de segurança da história dos smartphones com o Galaxy Note 7.
O aparelho era popular quando foi lançado, mas problemas começaram a surgir rapidamente. Defeitos nas baterias de íons de lítio podiam provocar superaquecimento e, em determinadas circunstâncias, incêndios e explosões mesmo durante o uso normal. A Samsung realizou um recall de mais de um milhão de aparelhos e substituiu suas baterias. O problema, entretanto, não foi resolvido: as baterias utilizadas em parte dos aparelhos substitutos, produzidas por outra empresa, também apresentavam falhas que poderiam provocar superaquecimento e incêndios, levando a um segundo recall.
A situação ganhou proporções tão grandes que o Galaxy Note 7 passou a ser considerado um risco de segurança, tornando-se inclusive motivo de proibições em diversas companhias aéreas. O modelo acabou sendo definitivamente retirado do mercado e descontinuado, causando prejuízos de bilhões de dólares à Samsung. O episódio também se tornou um dos exemplos mais conhecidos de como uma falha aparentemente localizada em um componente pode transformar um produto eletrônico de grande sucesso em um problema de segurança pública.
Os detectores de fumaça modernos são dispositivos seguros e extremamente importantes para a proteção de pessoas e imóveis. Eles conseguem identificar a presença de fumaça antes que um incêndio se espalhe e, com isso, podem proporcionar minutos preciosos para que os ocupantes deixem o local. Ainda assim, alguns modelos mais antigos ou mal conservados apresentam características que podem causar preocupação, especialmente porque determinados detectores utilizam pequenas quantidades de material radioativo.
Existem dois tipos principais de detectores de fumaça utilizados em residências. Os detectores ópticos, também chamados de fotoelétricos, utilizam sensores de luz para identificar partículas de fumaça. Já os detectores por ionização possuem uma pequena câmara na qual uma fonte radioativa altera a condutividade elétrica do ar. Quando partículas de fumaça entram nessa câmara, elas modificam esse processo de ionização, permitindo que o aparelho identifique a presença de fumaça e acione o alarme.
A fonte radioativa utilizada nesses detectores normalmente contém uma quantidade muito pequena de material radioativo e, quando o aparelho está intacto e sendo utilizado corretamente, não costuma representar um risco significativo para os moradores. O problema é que a radiação, em doses suficientemente elevadas, pode ser prejudicial ao organismo. Por esse motivo, alguns países e determinadas regiões adotaram restrições ou proibições para esse tipo de detector.
Detectores antigos, danificados ou que chegaram ao fim de sua vida útil devem ser descartados de acordo com as normas locais, justamente porque seu descarte inadequado pode expor pessoas ao material radioativo ou provocar danos ao equipamento. Também não se deve desmontar ou adulterar um detector de fumaça, pois isso pode danificar sua câmara de ionização e comprometer seu funcionamento. Outro problema é que muitas pessoas desconhecem a necessidade de um procedimento específico para o descarte de determinados modelos.
Isso não significa que seja necessário entrar em pânico diante de um detector de fumaça antigo instalado em casa. A quantidade de material radioativo presente nesses aparelhos é pequena e o dispositivo foi projetado para manter a fonte isolada em condições normais. O cenário seria muito diferente de uma exposição intensa e prolongada a grande quantidade de equipamentos danificados. Ainda assim, quando um detector antigo precisa ser substituído, é importante seguir as orientações de descarte aplicáveis na região.
Poucos produtos representam melhor a combinação entre sucesso repentino e problemas de segurança do que os chamados hoverboards, aqueles veículos elétricos de duas rodas que ganharam enorme popularidade na década de 2010. Eles não eram exatamente os veículos voadores imaginados em filmes como De Volta para o Futuro II, mas pareciam representar um primeiro passo nessa direção. Esses dispositivos elétricos com duas rodas e sistema de equilíbrio automático apareceram em programas de televisão, filmes e vídeos na internet e rapidamente se tornaram populares entre crianças, adolescentes e adultos. Também surgiram inúmeros vídeos de pessoas perdendo o equilíbrio e caindo enquanto tentavam aprender a utilizá-los.
A enorme procura pelo produto criou uma oportunidade para diversas empresas entrarem rapidamente no mercado. Fabricantes desconhecidos começaram a oferecer modelos semelhantes, muitas vezes tentando aproveitar a tendência antes que ela desaparecesse. O problema é que a velocidade dessa expansão fez com que alguns produtos fossem colocados à venda sem passar por verificações de segurança adequadas.
Os problemas mais graves estavam relacionados às baterias de íons de lítio. Em determinados modelos, os conjuntos de baterias podiam superaquecer e entrar em combustão, colocando não apenas o usuário em perigo, mas também sua residência e outros locais onde o aparelho estivesse sendo carregado ou armazenado. A situação se tornou particularmente preocupante porque os incêndios não pareciam estar limitados a uma única marca ou fábrica.
Testes posteriores indicaram que diferentes conjuntos de baterias utilizados nesses produtos podiam apresentar problemas capazes de provocar superaquecimento e incêndios. Como consequência, várias empresas tiveram de realizar recalls. O caso dos hoverboards tornou-se um exemplo de como uma tecnologia aparentemente simples pode apresentar riscos significativos quando a fabricação de componentes críticos, como baterias de alta densidade energética, não é acompanhada por controles de qualidade rigorosos.
Outro exemplo histórico envolve os antigos televisores coloridos de tubo fabricados pela General Electric. Durante décadas, muitas pessoas ouviram de seus pais que não deveriam se sentar perto demais da televisão porque isso poderia prejudicar a visão. Também existia a preocupação de que televisores de tubo, especialmente os modelos mais antigos, pudessem emitir radiação.
Os televisores de tubo realmente utilizavam tensões elétricas elevadas e podiam produzir radiação eletromagnética associada ao funcionamento do tubo de raios catódicos. Durante muito tempo, considerou-se que os níveis normalmente produzidos pelos aparelhos eram suficientemente baixos para não representar um problema significativo. Essa percepção mudou em 1967, quando testes mais rigorosos identificaram vários televisores de tela grande fabricados pela General Electric que emitiam níveis de radiação considerados superiores aos desejáveis.
A empresa procurou então aproximadamente 90 mil proprietários desses aparelhos para realizar reparos. Uma das hipóteses levantadas na época era que as tensões mais elevadas necessárias para determinados televisores coloridos poderiam ter contribuído para que alguns modelos produzissem níveis maiores de radiação.
O problema foi identificado e tratado relativamente rápido, mas permanece incerta a quantidade de televisores fabricados antes de 1970 que poderia ter apresentado níveis de radiação superiores aos recomendados. Isso não significa que todos os antigos televisores de tubo fossem perigosos. Modelos posteriores passaram a contar com padrões de segurança mais rigorosos e, quando em boas condições de funcionamento, são considerados seguros. Atualmente, um televisor de tubo usado para jogos retrô oferece riscos muito mais comuns, como seu peso elevado: tentar transportar um desses aparelhos sozinho pode resultar em uma lesão nas costas.
Relógios e outros instrumentos antigos que utilizavam rádio também representam uma categoria particularmente importante de tecnologia perigosa. Em lojas de antiguidades, ainda é possível encontrar relógios ou outros objetos identificados como contendo rádio. Esses produtos se tornaram populares no início do século XX porque seus mostradores brilhavam no escuro, permitindo que fossem consultados sem iluminação externa.
O brilho era produzido por uma tinta radioluminescente aplicada aos mostradores e ponteiros. Essa tinta normalmente continha rádio-226, um isótopo altamente radioativo. Durante a fabricação, a tinta era aplicada manualmente por trabalhadores. Para conseguir desenhar detalhes muito pequenos com maior precisão, algumas dessas trabalhadoras tinham o hábito de umedecer a ponta dos pincéis com a boca. Dessa maneira, acabavam ingerindo pequenas quantidades da tinta radioativa repetidamente. A exposição acumulada provocou doenças graves e mortes entre muitas dessas trabalhadoras e se tornou posteriormente um dos casos históricos mais conhecidos de exposição ocupacional à radiação.
O rádio-226 é especialmente perigoso quando incorporado ao organismo, porque permanece radioativo por um período extremamente longo e pode liberar radiação capaz de danificar tecidos. Mesmo um objeto antigo que já não apresenta o característico brilho verde-amarelado não deve ser automaticamente considerado seguro. O desaparecimento do brilho significa apenas que a tinta deixou de produzir luz visível em quantidade perceptível; não significa que a radioatividade tenha desaparecido.
Esses objetos podem continuar emitindo baixos níveis de radiação durante milhares de anos. Além disso, com o passar das décadas, a tinta pode se deteriorar, descascar e transformar-se em partículas ou poeira. Se esse material for inalado ou ingerido, poderá representar um risco muito maior do que simplesmente manter o objeto intacto e sem ser manipulado.
Por isso, um relógio antigo contendo rádio não deve ser aberto, raspado, lixado ou restaurado de maneira improvisada. O risco não está apenas na radiação que atravessa o objeto, mas também na possibilidade de espalhar material radioativo pelo ambiente. Objetos desse tipo podem inclusive ser detectados por instrumentos como contadores Geiger. O fato de uma peça antiga ainda parecer funcionar ou apresentar valor histórico não elimina os cuidados necessários para manuseá-la.
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