O uso de tecnologias como celulares, tablets e videogames se tornou parte da vida cotidiana de muitas crianças. Em contrapartida, as brincadeiras ao ar livre, realizadas em praças, ruas e quintais, perderam espaço em comparação com gerações anteriores. Essa transformação levanta questões sobre seu impacto no desenvolvimento emocional das crianças.
Em entrevista, a psicóloga Michelle Mello, do AmorSaúde, destaca que, apesar da evolução dos hábitos infantis, as interações presenciais continuam a desempenhar um papel crucial na formação de habilidades que acompanham os indivíduos ao longo da vida. A especialista observa que as brincadeiras livres proporcionam experiências que raramente são replicadas diante das telas. "Crianças que cresceram brincando ao ar livre, em contato direto com outras crianças, costumam desenvolver mais habilidades emocionais por meio das interações compartilhadas", afirma.
Além do aspecto lúdico, as brincadeiras de rua são fundamentais para a construção de competências sociais essenciais. Durante essas atividades, as crianças têm a oportunidade de negociar regras, aguardar a vez, lidar com derrotas, resolver conflitos e respeitar limites, tudo isso de forma espontânea. Michelle Mello enfatiza que essas experiências também são vitais para a autonomia infantil. "Ao enfrentar situações cotidianas sem a constante mediação de um adulto, a criança aprende a tomar decisões, avaliar riscos e lidar com as consequências de suas escolhas", explica.
Esses aprendizados adquiridos na infância costumam emergir novamente na vida adulta. Pessoas que tiveram a oportunidade de brincar e interagir presencialmente geralmente apresentam maior capacidade de enfrentar frustrações, de tomar decisões de forma mais segura e de estabelecer relacionamentos saudáveis. A psicóloga ressalta que o desenvolvimento socioemocional depende de um equilíbrio entre experiências virtuais e reais.
Michelle Mello sugere que a participação ativa da família é essencial para encontrar esse equilíbrio. Mais do que apenas limitar o tempo de uso de dispositivos, é importante que os pais conheçam os conteúdos consumidos pelas crianças e monitorem sua rotina digital. Incentivar atividades presenciais, como jogos ao ar livre, esportes, passeios em parques e momentos de convivência familiar, é uma forma de estimular a criatividade, a autoestima, a empatia, a comunicação e a autonomia, além de fortalecer os vínculos familiares.
A psicóloga conclui que é igualmente importante proporcionar um espaço de escuta acolhedora, onde a criança se sinta à vontade para compartilhar suas experiências, emoções, dúvidas e dificuldades, tanto no mundo online quanto fora dele. Essa proximidade não apenas fortalece o vínculo afetivo, mas também favorece o desenvolvimento da confiança, da autonomia e da inteligência emocional.



